terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cinema: Fahrenheit 451


Um mundo sem livros

Por Ricardo Flaitt

Você conseguiria imaginar o mundo sem livros? Esse é o tema de Fahrenheit 451, de François Truffaut.

Num mundo futuro imaginário, as pessoas vivem sob um sistema totalitário, em que os livros são proibidos, pois, de acordo com o Estado, eles criam diferenças, geram desejos e frustrações nos seres humanos.

Há um diálogo no início do filme entre os personagens Guy Montag (Oskar Werner), um membro do Departamento Fahrenheit 451, responsável em encontrar e queimar os livros, e Clarisse (Julie Christie ), professora afastada pelo sistema e apaixonada por leitura.

Clarisse: Diga-me, esse número que vocês usam, o que significa? Por quê 451 e não 813 ou 121?
Montag: Fahrenheit 451 é a temperatura em que o papel dos livros incendeia e começa a queimar
Clarisse: Eu gostaria de lhe perguntar outra coisa, mas não ouso.
Montag: Vá em frente!
Clarisse: É verdade que há muito tempo os bombeiros apagavam incêndios em vez de queimarem livros?
(...)
Clarisse: Por quê queimar livros?
Montag: É um trabalho como qualquer outro. Bom trabalho, com muita variedade. Segunda queimamos Henry Miller; terça, Tolstoi; quarta, Walt Whitman; sexta, Faulkner e sábado e domingo Schopenhauer e Sartre. Queimamo-los até ficar cinza e depois queimamos as cinzas. É o nosso lema oficial. Os livros são apenas lixo. Não tem interesse nenhum.
Clarisse: Então, por que ainda há pessoas que os lêem sendo tão perigosos?
Montag: Precisamente, porque é proibido. Porque faz as pessoas ficarem infelizes.
Clarisse: Acredita nisso mesmo?
Montag: Sim. Livros perturbam as pessoas, tornam-as anti-sociais. (...)

O disciplinado membro da Fahrenheit 451, Montag, começa a entrar em crise existencial. Não vê mais sentido no seu trabalho. Responsável em queimar livros, passa a ter curiosidade para saber o que eles contêm de tão proibidos e perigosos. Montag leva um livro para casa. Ao lê-lo descobre um mundo mágico, distante da vida insossa, tecnicista e pragmática imposta pelo sistema.

A partir daí, Montag já não se enquadra mais no sistema. Entra em colapso e passa para o lado da resistência, até se juntar com os homens-livros. Imagem genial criada pelo diretor Truffaut da ligação do homem com a literatura, no sentido amplo.






Curiosidades – Os créditos iniciais do filme não são escritos, mas narrados, para antecipar o clima de leitura proibida. Nesse momento, são mostradas várias antenas de TV nas casas. Jean-Louis Richard e François Truffaut, baseado em livro de Ray Bradbury


Fahrenheit 451 (Inglaterra, 1966), direção François Truffaut. Jean-Louis Richard e François Truffaut, baseado em livro de Ray Bradbury. Música: Bernard HerrmanFicção. Elenco: Oskar Werner (Guy Montag), Julie Christie (Linda / Clarisse), Cyril Cusack (Capitão), Anton Diffring (Fabian), Anna Palk (Jackie). Cor. 112 min. Disponível em DVD.

Premiações: BAFTA 1967 (Reino Unido), Indicado na categoria de Melhor Atriz (Julie Christie), Festival de Veneza 1966 (Itália) e indicado ao prêmio Leão de Ouro.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Futebol: A diferença entre contratações e títulos

Por Ricardo Flaitt

Agora o assunto do momento no meio esportivo é a contratação de Ronaldo Fenômeno pelo Corinthians. Sem dúvida, uma grande contratação, com repercussão internacional e a promessa de solução para o ataque do Parque São Jorge.

Corinthianos estão em êxtase. Confesso que também considero um grande fato para o futebol brasileiro. Mas nem tudo são flores nessa contratação, que ao mesmo tempo é uma jogada de marketing.

É preciso deixar claro que Ronaldo não é a solução integral para o Corinthians. O São Paulo teve uma experiência negativa em 2008 ao contratar Adriano. Tinha tudo para arrebentar no São Paulo, mas seus problemas disciplinares (para não entrar em detalhes) pesaram mais que seus gols no Morumbi.

Ronaldo Fenômeno pode ter tirado os holofotes do hexacampeonato do Tricolor, mas, a verdade é que um grande time se consolida com títulos e não com contratações.

O São Paulo, com uma equipe mediana em sua maioria, conquistou o terceiro título nacional consecutivo e o sexto na história. Fato inédito, que o posiciona de forma soberana.

Deixando o fanatismo e a paixão de lado, a verdade é que a equipe do Parque São Jorge retorna da segundona do Brasileiro. Está montando um bom time, mas ainda não conquistou nada. Se elenco ganhasse título, sem dúvida, os “galáticos” do Real Madrid nem precisariam disputar campeonato, pois seriam campeões por antecipação.

Outra constatação lógica e serena, mesmo para os mais entusiastas: “Títulos valem mais que contratações”.

Texto publicado no site www.tricolorpaulista.net

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Futebol: O cavalo arriado de Richarlyson


Por Ricardo Flaitt

Tem um ditado em Minas Gerais que fala: “quando o cavalo passa ‘arriado’ a gente tem de montar”. A máxima cabe perfeitamente para Richarlyson, que vive um momento de instabilidade no Tricolor e terá uma nova chance na equipe titular no jogo decisivo frente ao Goiás.

Rickarlyson já demonstrou, durante o Brasileirão de 2007, que é um bom jogador, tanto que foi eleito o melhor volante do campeonato e chegou à Seleção Brasileira com um futebol de pegada na marcação, bom chute, moderno, polivalente, tático e de força.

Mas parece que a Seleção fez mal para Richarlyson. Depois que retornou, abusou das firulas, deixou de lado seu futebol força e foi decaindo até chegar ao banco de reservas. Parece não ter administrado bem em sua mente a convocação. Richarlyson é bom de bola, mas não é craque.

Há que se considerar também que outros estão surgindo, como é o caso do garoto Jean, que atualmente domina o meio-campo ao lado de Hernanes. Eis que surge uma nova oportunidade para demonstrar mais uma vez seu futebol.

A torcida do São Paulo também precisa ser mais tolerante com Richarlyson e considerar o que ele já fez pelo Tricolor. Se esperaram mais de um ano para que o futebol de Dagoberto emergisse, porque não dar mais uma chance para Richarlyson?

O cavalo está passando arriado mais uma vez, agora cabe a Richarlyson suar a camisa e provar que tem espaço no Tricolor e conquistarmos o hexacampeonato.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Cinema: Lavoura Arcaica

Filho pródigo às avessas





Por Ricardo Flaitt

Lavoura Arcaica narra a história de André (Selton Mello), que sai de casa por não suportar a pressão paterna e a rigidez de uma família de libaneses, com fortes tradições, que vivem isoladas numa fazenda.

Diante do abandono, o pai (Raul Cortez), manda que Pedro (Leonardo Medeiros), o primogênito da família, vá à cidade buscar André para retornar e reconstruir a família. Pedro encontra André numa pensão. Perdido, sem destino, André conta ao irmão os reais motivos que o levaram a abandonar a família. André queria sorver o mundo além das divisas da fazenda e conhecer outras coisas além dos limites das tradições familiares. Mas existe um problema muito maior que o sufoca e o perturba: a paixão incestuosa pela irmã mais nova, Ana, interpretada por Simone Spoladore.

André regressa à família. Mas, ao contrário do que acontece na história do Filho Pródigo, o retorno só realça os conflitos e confirma a distância que existe entre o mundo que André deseja para si e o mundo traçado pelos seus pais.

O filme é uma adaptação do livro homônimo de Raduan Nassar. O diretor Luiz Fernando de Carvalho transpôs trechos do livro para os diálogos dos personagens. Fato que distanciou alguns espectadores menos exigentes acostumados com diálogos prático e de linguagem rápida.

Exala poesia em Lavoura Arcaica. Um filme sensível, com imagens belíssimas do diretor de fotografia Walter Carvalho, atuações perfeitas, consolidando-se, sem exagero, como um dos melhores filmes já realizados na história do cinema mundial.

Muitos críticos apontaram a extensa duração do filme como um ponto negativo, mas a verdade é que Lavoura Arcaica é uma obra-prima, que não perde sua força no tempo. Um filme essencial para quem gosta de cinema e para quem ainda tem preconceito com o cinema nacional.

Curiosidades – Foi o primeiro longa-metragem de Luiz Fernando de Carvalho. O filme foi realizado inteiramente em uma locação, em uma fazenda do interior de Minas Gerais. Nela, os atores e a equipe técnica passaram nove semanas, durante as quais aprenderam a trabalhar a terra, ordenhar, fazer pão, bordar e dançar como uma família de origem libanesa e rural. O próprio autor do texto original, Raduan Nassar, esteve presente durante esta etapa.

Lavoura Arcaica (Brasil, 2001), direção de Luiz Fernando de Carvalho. Drama. Elenco: Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, Caio Blat. Cor. 163 min.

Premiações: Grande Prêmio BR de Cinema 2002; Melhor filme, melhor fotografia e melhor trilha sonora no Festival de Cartagena; Prêmio do Público no Festival de Buenos Aires do Cinema Independente (2002), dentre outros.


Texto publicado no jornal Guarulhos Hoje. www.guarulhosweb.com.br

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Filme: Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore


O poder e a magia do Cinema

Por Ricardo Flaitt

Quem nunca se emocionou ao assistir um filme? Quem não se recorda dos filmes que marcaram nossa infância? O cinema tem esse poder de nos fazer refletir sobre as nossas vidas. Segundo o crítico Edmar Pereira, “o cinema tem a capacidade nos faz conjugar infinitos verbos”.

Cinema Paradiso narra a história do consagrado cineasta Salvatore (Jacques Perrin) que recebe o telefone de sua mãe, comunicando que o projecionista Alfredo morreu. A morte de Alfredo desencadeia as lembranças de infância no diretor...

E são as memórias de infância de Salvatore que serão projetadas em Cinema Paradiso. O consagrado diretor relembra o tempo em que era simplesmente o menino Toto (Salvatore Cascio), morador de uma cidadezinha da Sicília (Itália), que teve sua vida transformada ao conhecer o projecionista do único cinema da cidade, Alfredo, intepretado por Phillip Noiret.

Toto conhece o cinema com Alfredo. Estabelecem uma grande amizade em que o cinema e a vida se entrelaçavam. Giuseppe Tornatore mostra todo o encanto, os personagens folclóricos e a vida nas cidadezinhas, num tempo em que não havia televisão e o cinema era a atração da cidade.

Uma das cenas mais linda da história do cinema é o momento em que Alfredo projeta o filme num paredão de uma casa, para que todos que ficaram de fora também possam ver ao filme.

Vi Cinema Paradiso pela primeira vez ao lado de meu pai (João Flaitt), hoje com 70 anos, e que quando menino e adolescente, também trabalhou num cinema na cidade de Itapeva. E emocionei-me ao vê-lo, com lágrimas nos olhos, ao emergirem suas lembranças dos tempos de menino. Hoje entendo que não é à-toa que amo tanto cinema...

Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, que era para ser uma triste história sobre os fechamentos das salas tradicionais de exibição acabou se tornando uma das maiores obras sobre o poder e a magia do cinema. Lírico e emocionante. Sem dúvida está entre os melhores filmes já realizados.

Curiosidades – Fracasso na Itália, Cinema Paradiso ganhou o mundo e os corações das pessoas. Salvatore Cascio, o menino Toto, foi escolhido entre as crianças da região em que as filmagens aconteceram. O fato de ter o mesmo nome e apelido do personagem chamou a atenção do diretor. Mas o que lhe rendeu o papel foi ter decorado todas as falas e marcações de uma cena durante os testes.

Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso 1990), direção e roteiro de Giuseppe Tornatores. Drama. Elenco: Antonella Attiu, Enzo Cannavale, Leo Gulotta, Marco Leonardi, Puppella Maggio, Agnese Nasso, Leopoldo Trieste, Salvatore Cascio, Jacques Perrin e Phillipe Noiret. Música de Ennio Morricone.Colorido, 123 min.

Premiações: Ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, empatado com Linda Demais Para Você e o prêmio de Melhor Pôster no César.

Veja também outros filmes do diretor Giuseppe Tornatore: Estamos todos Bem (1989), A lenda do pianista do mar (1998), O homem das estrelas (1995) e Maleña (2000).

Publicado no jornal Guarulhos Hoje, dia 28 de novembro de 2008
http://www.guarulhosweb.com.br/

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Futebol - SPFC x Flu: muito mais do que a consagração do hexa

Próximo domingo o São Paulo reencontrará o tricolor das Laranjeiras para mais uma partida decisiva. O confronto, de certa forma, e uma extensão daquela partida em que o São Paulo perdeu para o Fluminense no último minuto de jogo em confronto pela Libertadores da América.

Evidente que são dois momentos diferentes, mas que não deixam de ser decisivos para os dois clubes. Agora o São Paulo depende da vitória para sagrar-se hexacampeão brasileiro, enquanto o Fluminense, após a tragédia do Maracanã, ao perder o título da Libertadores em casa, luta para se afastar da zona de rebaixamento no Brasileirão.

Pode o São Paulo não declarar oficialmente que não há revanchismo nessa partida, mas a verdade é que nenhum torcedor são-paulino digeriu aquela derrota pela Libertadores. E nenhum jogador também. Agora o jogo frente ao Fluminense, além de valer o hexa também estará em jogo uma resposta por aquela derrota.

Com o Morumbi completamente lotado e com a chance de ser o primeiro hexacampeão do Brasil, sem dúvida, essa partida terá um sabor a mais: pelo hexa e pela derrota na Libertadores.

Texto publicado no site www.tricolorpaulista.net

Futebol: O hexa ainda não está ganho

Ao contrário do que ecoa nas mesas dos bares e nas conversas nas arquibancadas, o São Paulo ainda não conquistou o hexa. Tenho consciência que muitos leitores irão me apedrejar com esse texto, dizendo que sou pessimista, mas, se analisarmos com calma, sem euforia, constataremos que ainda é preciso suar muito a camisa para o título.

Temos que ser realistas, pois ainda faltam três jogos para a conquista do hexa. E sejamos sinceros, pelo contexto, serão três pedreiras.

Primeiro frente ao Vasco, em São Januário, que joga em casa e luta desesperadamente para não cair para a segunda divisão. É evidente que, no papel, o time do Vasco nem se compara ao do São Paulo, mas a situação, com todos os holofotes focados nesse jogo criaram um clima especial para a partida. O São Paulo busca o hexa e o Vasco busca a redenção perante sua torcida.

Depois tricolor enfrentará o Fluminense, no Morumbi. Outro jogo dificílimo. O Fluminense também luta contra o rebaixamento e quer provar a todo custo à sua torcida que não morreu depois da perda da Libertadores. E há que se considerar que, assim como o Vasco, é um time de tradição, tem camisa, e frente ao São Paulo terá a oportunidade de reverter a imagem negativa.

Por fim encaremos o Goiás fora de casa. Outro jogo que não será nada fácil. Há que se refrescar a memória que o Goiás enfiou três a zero no Cruzeiro, quando o time mineiro estava na luta direta pelo título.

O hexa não está ganho. Temos que evitar o clima de euforia, para não acontecer tragédias a exemplo do Flamengo na Libertadores, quando perdeu de três para os mexicanos em pleno Maracanã, vítima do “já ganhou”, de um entusiasmo que ofuscou a dura realidade e a falta de lógica que sempre acompanhou o futebol.

Texto publicado no site http://www.tricolorpaulista.net/

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Cinema: Queimada, de Gillo Pontecorvo

Uma aula de política

Por Ricardo Flaitt, com a colaboração do sociólogo Marco Antonio Mota

“Queimada é uma das centenas de Ilhas das Antilhas. O nome Queimada deve-se ao fato dos portugueses terem de queimar a ilha para vencer a resistência dos índios. Quase todos os nativos foram mortos. Trouxeram então escravos da África para trabalhar nos canaviais”. A bordo de um navio, um tripulante explica ao diplomata inglês, Willian Walker (Marlon Brando) as características da ilha. Assim começa Queimada, filme de Gillo Pontecorvo.

Todos os movimentos do homem são muito bem pesados e medidos. Não existe nada aleatório no jogo político mundial. Willian Walker (Marlon Brando) chega à Queimada com a missão de mudar a ordem do poder local, quebrar o monopólio português sobre a cana-de-açúcar para atender aos interesses da Coroa Inglesa. Mas como promover a ordem estabelecida em Queimada? Para isso, Walker (Brando) tem de encontrar/forjar um líder entre a população para deflagrar a revolução.

Willian vê essa possibilidade no escravo José Dolores (Evaristo Marquez). Assim incita seus anseios de liberdade levando-o à condição de revolucionário. Com o discurso de que sua intenção é acabar com a exploração dos negros, Walker manipula José Dolores e sua liderança para alcançar os interesses econômicos liberais da Inglaterra. Hábil, astuto, maquiavélico, Walker une dois interesses: o anseio dos negros para se libertarem e, ao mesmo tempo, a mudança do centro do poder da ilha.

Com José Dolores consolida a revolução. Os negros depõem o governo, mas o ex-escravo descobre que não seria ele o governante do país. Indignado, assume o poder à força.

Mas seu “mandato” não dura muito, pois governar não é tão simples como os sonhos dos românticos e dos idealistas. Willian Walker (Brando) questiona o então presidente de Queimada, José Dolores: “Quem serão seus ministros? Com quem você irá negociar?...”. Ou seja, como comandar o País e seus inúmeros interesses que permeiam? Com olhar perplexo, Dolores se vê perdido, sem a dimensão de que governar é preciso muito preparo.

Em outro diálogo carregado de ironia, Walker fala a Dolores: “A civilização é muito complicada”. Diante desse impasse, Dolores resolve fazer um pacto. Concorda que o país seja governado por outro representante, desde que sejam feitas algumas mudanças, como a libertação dos escravos.

Após nove anos, Willian Walker (Brando) retorna à Queimada, que vive sob uma ditadura. Dolores já não estava no poder e voltara a ser um revolucionário. Mas agora Walker não está mais “precisando” de Dolores, uma vez que os que estão no poder obedecem à “Rainha”. A resistência de Dolores precisa ser eliminada. Dolores precisa ser morto e passa a ser caçado como inimigo do Estado.

Cabe aqui perfeitamente uma declaração de Maquiavel: “Os homens mudam de governantes com grande facilidade, esperando sempre uma melhoria. Essa esperança os leva a se levantar em armas contra os atuais. E isto é um engano, pois a experiência demonstra mais tarde que a mudança foi para pior”.

Os governantes fazem com que o povo acredite que eles ocuparão o poder e terão oportunidade de decidir seus destinos, mas, ao final, constata-se, no círculo vicioso da História, que o povo, ainda que sob uma nova roupagem, continua a ser “massa de manobra” daqueles que detém o capital e o conhecimento, já que o saber também é uma forma de poder.

Queimada é uma aula de política, envolve temas sobre um determinado período da História (inclusive do Brasil) e a relação do homem e seus interesses. Essencial para se entender os mecanismos do mundo. Queimada não tem a pretensão enfadonha de narrar uma história romântica dos oprimidos. É um grande filme porque mostra como o funciona o mundo. Não defende opressores nem oprimidos, mas mostra com inteligência como as coisas operam na política, com todos os seus jogos e interesses.

Curiosidades – No filme, Queimada é uma ilha portuguesa, mas a verdade é foi rodado na Colômbia. Outro ponto é que Portugal não colonizou nada nas Antilhas e, num diálogo, Brando explicou erroneamente: "Você sabe que Portugal e Inglaterra são inimigos tradicionais" (isso acontecia com a Espanha, Portugal sempre foi aliado da Inglaterra).

Evaristo Marquez, que interpretou José Dolores nunca tinha sido ator e muito menos tinha visto um filme no cinema.

Queimada (Burn!, 1968), de Gillo Pontecorvo. Drama. Elenco: Marlon Brando, Renato Salvatori, Norman Hill, Evaristo Marquez, Tom Lyons. Música de Ennio Morricone.Colorido, 132 min.

Veja também outros filmes do diretor Gillo Pontecorvo: A Batalha de Argel (1966) e Kapò (1959).

Ricardo Flaitt é assessor de imprensa da Federação dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo e colunista do site www.tricolorpaulista.net. Dicas e sugestões para: ricardoflaitt@hotmail.com

Texto publicado no jornal Guarulhos Hoje, 14 de novembro de 2008

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

TricolorPaulista.net: Avaliações SPFC x Portuguesa


São Paulo vence a Lusa e dá mais um passo para o hexa
Rogério Ceni – Defendeu uma pancada de Edno da Portuguesa numa cobrança de falta. Fez outras boas defesas e contou com a sorte ao ver outro bola de Edno parar no travessão. Nota 7,0

André Dias – Falhou frente a Portugusa. Levou um drible de Jonas que originou o gol da Lusa. Mas tem muito crédito. Durante esse campeonato é o verdadeiro xerife da defesa tricolor. Nota 4,0

Miranda – Colou em Edno. Seguro nas jogadas. Nota 6,5

Rodrigo – Firme. Nota 7,0

Joílson – Atuando como ala-direito, não apoiou muito, pois tinha a missão de segurar Athirson, da Lusa. Deu conta do recado. Nota 6,5

Éder Luís – Entrou no final e nada fez. Nota 5,0

Zé Luís – Retomou sua posição de origem, o meio-campo. Marcou forte, não deu espaços e foi coroado com o gol da vitória. Nota 8,0

Jean – Recuado não apoiou como nas outras partidas, mas foi regular. Nota 6,0

Jorge Wagner – Não foi tão participativo como nas outras partidas, mas sua principal arma foi acionada. Em bola parada, deu origem à jogada do primeiro gol tricolor. Nota 6,0

Hernanes – Jogou muito. Marcou, armou e criou boas jogadas para o ataque. Agora sim é o Hernanes que arrebentou no Brasileirão do ano passado e que chegou à Seleção. Nota 7,5

Dagoberto – A mesma garra de sempre, incansável, correu o tempo todo e ajudou na marcação. Marcado, não aparecia muito, mas fez uma excelente jogada com Borges, que originou o segundo gol, provando mais uma vez que forma uma dupla excelente com Borges. Nota 7,0

Richarlyson – Entrou faltando três minutos. Não deu tempo para fazer nada. Aproveito para fazer algumas considerações: muitos torcedores já estão falando que Richarlyson não cabe mais no São Paulo. Eu não penso assim, pois é muito bom jogador, apresenta um futebol moderno e versátil, pegador, de forte marcação e com um bom chute. Jogou muita bola no Brasileirão do ano passado, porém, caiu depois que foi para a Seleção. Mas a torcida não pode esquecer o que Ricky já fez pelo São Paulo. Nota 5,0

Borges – Artilheiro. Já mostrava seu poder de força desde o Campeonato Paulista. Perdeu espaço com a chegada de Adriano, mas soube esperar outra oportunidade. Joga muita bola, tem faro de gol e é decisivo. Joga para o time, correu muito, inferniza a defesa adversária e forma uma excelente dupla com Dagol. O que falta era Muricy dar uma seqüência de jogos para os dois. O resultado está aparecendo. Nota 8,5

Muricy – Com a suspensão de Hugo, deslocou acertadamente Zé Luís no meio-campo (onde seu futebol aparece de verdade) e Joílson pela ala-direita, para conter os avanços de Athirson, na ala-esquerda da Lusa. Apostou mais uma vez na dupla Dagol-Borges e a seqüência de jogos provou que eles darão muito o que falar. Sem grandes craques, Muricy montou um time com força de marcação, disciplinado taticamente e que mantém a regularidade. Nota 8,0

Participe das avaliações, envie críticas e sugestões para: ricardoflaitt@hotmail.com


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Cinema: O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

As pequenas grandes coisas da vida

Por Ricardo Flaitt

A vida compõe-se e revela-se em sua plenitude nos pequenos gestos, nos pequenos atos, em pequenos momentos que se entrelaçam em meio ao turbilhão mecânico do cotidiano.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain narra a história de uma menina que desenvolve uma sensibilidade enorme pelo fato de viver sempre isolada das pessoas. Esse distanciamento estabeleceu uma relação diferente com as coisas e os seres, desenvolveu um jeito especial dela enxergar e lidar com o mundo.
Amélie (Audrey Tautou) leva uma vida aparentemente insossa. Sem namorado, sem amigos, com um pai indiferente e uma mãe neurótica, trabalha como garçonete ao lado de pessoas comuns, com seus problemas rotineiros, neuras, carências e decepções.
Mas a vida de Amélie rompe a monotonia ao encontrar uma caixinha atrás do azulejo do seu banheiro, contendo “pequenas” lembranças de um menino que morara lá por volta de 1950. Diante disso, resolve encontrar esse menino, agora já um homem, para lhe entregar seu tesouro de infância.
A reação do homem ao encontrar a caixinha com suas recordações desencadeia em Amélie uma nova percepção e um novo sentido para sua vida.

Amélie sente que pode ajudar também as pessoas a “quebrarem” o ritmo insosso e insano do cotidiano. Com essa nova relação com o mundo, acaba expandido seu universo particular e descobre o Amor. Amélie apaixona-se pelo jovem Nino Quincampoix (Mathieu Kassovitz ), que também possui uma vida à margem do que é estabelecido como certo nesse mundo mercadológico.

Ao mesmo tempo em que encontro gera um sentido para sua vida, tenta também com que todos ao seu redor quebrem a rotina e encontrem a felicidade.

Numa fronteira entre o conto de fadas e a realidade, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, embalado pela excelente trilha sonora de Yann Thiersen, revela que o valor da vida está nas pequenas grandes coisas do cotidiano. Um filme para ver e rever ao longo da vida...

Prêmios - Recebeu 5 indicações ao Oscar, nas seguintes categorias: Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Som e Melhor Roteiro Original. Recebeu uma indicação ao Globo de Ouro, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Recebeu 13 indicações ao César, nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz (Audrey Tautou), Melhor Ator Coadjuvante (Rufus e James Debbouze), Melhor Atriz Coadjuvante (Isabelle Nanty), Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Desenho de Produção, Melhor Trilha Sonora, Melhor Som e Melhor Roteiro.

Curiosidades - O namorado de Amelie no filme é, na vida real, o diretor de cinema Mathieu Kassovitz, autor do ótimo filme O Ódio (La Haine, 1995), que narra a história de três imigrantes tentando sobreviver numa Paris racista.

Os tons verdes, vermelhos e azuis que predominam e dão um ar ainda mais de fábula ao filme. Os tons são inspirados na obra do artista plástico brasileiro Juarez Machado.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d´Amélie Poulain, 2001), de Jean-Pierre Jeunet. Comédia/Romance – Colorido – 122 min.

Veja também outros filmes de Jean-Pierre Jeunet – Delicatessen (1991) e Ladrão de Sonhos (1995).

Ricardo Flaitt é jornalista. Dicas e sugestões para: ricardoflaitt@hotmail.com

Publicada no jornal Guarulhos Hoje, dia 07 de novembro de 2008

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Moby Dick: ódio e obsessão


Por Ricardo Flaitt

A versão cinematográfica de John Huston para o clássico de Moby Dick é um dos casos em que a adaptação pode ser considerada tão boa quanto a obra original. Huston conseguiu captar em imagens a grandiosidade da obra de Herman Melville (1819-1891).

Narrado em primeira pessoa, história de Moby Dick é contada por Ishmael (Richard Basehart), marinheiro que busca uma nova aventura na cidade portuária. Lá, encontra um navio baleeiro, o Pequod, da cidade de Natucket, o Pequod, que partia em direção ao Oceano Pacífico.

Huston preservou o texto literário, reproduziu diálogos inteiros de forma natural. Transpôs para as telas o peso da luta épica entre o homem (Ahab) e a natureza (Moby Dick), sem que a história perdesse seu espírito de aventura, de entretenimento.

O navio era capitaneado por Ahab (Gregory Peck), que foi vítima de um cachalote branco, imenso, que numa batalha arrancou-lhe a perna. A partir desse confronto, Ahab fez de Moby Dick o motivo da redenção de sua vida. Deixou todos os interesses econômicos de lado e fez da viagem a sua busca por Moby Dick: que se tornou uma obsessão, sua luta insana, auto-destrutiva e até redentora.

Genial como John Huston conseguiu recriar a atmosfera momentos antes de Ahab se deparar com Moby Dick. Sem vento, como se o mundo entrasse num vácuo de tempo.

Moby Dick consegue ser um clássico de aventura e também uma viagem ao universo do homem perante as forças da natureza.

Curiosidades – Orson Wells, diretor de “Cidadão Kane”, considerado o melhor filme de todos os tempos, faz uma ponta como o Padre Mapple, que seleciona e abençoa os marujos do navio Pequod.

O barco usado pelo Capitão Ahab e sua tripulação neste filme é o mesmo do clássico da Disney “A Ilha do Tesouro”. Ele passou por uma completa reforma para aparecer nesse filme.

MOBY DICK (Moby Dick, 1956), de John Huston. Inglaterra – Aventura/Clássico – cor – 115 min. Disponível em DVD.

Elenco: Gregory Peck, Orson Welles, Richard Basehart, Leo Genn, James Robertson Justice, Harry Andrews, Friedrich Ledebur, Bernard Miles, Edric Connor, Noel Purcell, Mervyn Johns, Joseph Tomelty

Ricardo Flaitt é jornalista. Envie críticas e sugestões para: ricardoflaitt@hotmail.com

Texto publicado no jornal Guarulhos Hoje.

São Paulo goleia o Inter e consolida-se como líder isolado

Rogério Ceni – Foi pouco exigido, mas executou duas extraordinárias defesas. Nota 7,0

André Dias – Manteve a regularidade das últimas partidas. Um pilar da defesa Tricolor. Mostrou muita raça e determinação. Nota 7,0

Miranda – Não deu espaço para o ataque colorado. Marcou forte, com muita disposição e precisão. Nota 7,0

Rodrigo – Encaixou-se perfeitamente ao lado de Miranda e André Dias. Chegou forte e não deu espaços. Nota 7,0

Juninho – Entrou no lugar de Rodrigo, que saiu machucado. Não teve tempo para mostrar nada. Nota 5,0

Zé Luís – Jogando pela ala-direita, que não é sua função, não comprometeu, mas também não conseguiu ser uma boa opção. Errou muito. Depois, com a entrada de Jancarlos, foi para o meio-campo, que é seu lugar de fato. Nota 5,5

Jean – Tinha uma função específica em campo: marcar Alex individualmente. E deu conta do recado. Anulou o camisa 10 do colorado. Correu, lutou, compôs e meio e ligou o meio ao ataque com qualidade. Nota 7,0

Jorge Wagner – Excelente partida. Atuando pela ala-esquerda e também caindo para o meio-campo. Marcou duro, participou do jogo, criou perigo pela esquerda, arriscou chutes. É o Jorge Wagner que todo tricolor espera. Nota 7,5

Hernanes – Retomou seu futebol. Forma uma bela dupla de meio-campo ao lado de Jean. Os dois parecem que já jogam há tempos. Hernanes marcou bem, apoiou e criou jogadas. Nota 7,0

Hugo – Não aparecia muito no jogo, pois jogava mais para o time. Ajudava na marcação e criou algumas jogadas. Mais uma vez deixou o dele para calar nossas críticas e deixar claro que tem uma função não tão nobre, mas importante para o conjunto. Nota 7,5

Dagoberto – Um monstro em campo. Correu muito, infernizou a defesa colorada, ajudou muito na marcação. Jogou com raça e marcou um golaço. Digno dos velhos tempos de Dagoberto. Só uma crítica: ao final do jogo, deu uma declaração ressentida à rádio Transamérica, dizendo que a imprensa o critica muito. Mas sejamos honestos e justos, Dagoberto não vinha jogando nada. Alternava partidas horríveis e, de vez em quando, tinha uma boa atuação. Sabemos que está lutando para melhorar, mas também não podemos elogiar só pelo esforço. E Dagoberto não pode reclamar, pois está há um tempão no São Paulo, conta com a tolerância da torcida e da Diretoria. Frente ao Colorado foi muito bem. Agora tem de manter. Nota 9,0

Jancarlos – Entrou no lugar de Dagoberto. Com isso, ocupou a ala-direita e fez com que Zé Luís ajudasse na marcação do meio-campo. Não teve muito tempo para mostrar seu futebol. Nota 5,5

Borges – Acredito muito na dupla Borges-Dagoberto. E ontem foram muito bem. Precisavam de uma seqüência de jogos. Rápidos, deram canseira para a defesa do Inter. Borges meteu uma bola na trave e deixou o dele, abrindo o placar. Nota 8,0

André Lima – Entrou no lugar de Borges. Sem tempo para mostrar alguma coisa. Nota 5,0

Muricy – Foi bem ao apostar novamente na dupla Borges-Dagoberto. Mais uma vez montou um esquema compacto, com Jorge Wagner e Hugo chegando ao ataque. Segue para o oitavo título consecutivo em oito anos. Nota 8,0

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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

São Paulo bate o Botafogo no Engenhão e cola na liderança do campeonato

Rogério Ceni – Mostrou mais uma vez que é diferenciado. Mostrou toda sua elasticidade em defesa na cobrança de falta do Botafogo. Experiente, soube segurar o jogo nos momentos de sufoco. Nota 7,5

Jancarlos – Novamente não aproveitou a chance. Está perdendo espaço no Tricolor. Nota 5,0

André Dias – Xerife da defesa Tricolor, novamente mostrou que está em sua melhor fase. Nota 7,0

Miranda – Vacilou feio dentro da área e proporcionou o gol de empate do Botafogo. Mas tem muito crédito... Nota 4,0

Rodrigo – Mostrou muita vontade, mas se perdeu em alguns momentos nas bolas pelo alto. Logo no início do jogo, tomou uma bola nas costas que por pouco não originou o gol de cabeça do zagueiro botafoguense André Luiz. Nota 5,5

Jorge Wagner – Está retomando o futebol que o projetou no Inter. Acrescenta muito ao time quando participa do jogo. Ontem mostrou muita disposição, marcou e chegou com perigo ao ataque. Não está mais limitado às jogadas de bolas paradas. A torcida do São Paulo cobra Jorge Wagner porque sabe que ele tem muita bola no pé. Nota 7,0

Hernanes – Forma um belo meio-campo ao lado do garoto Jean. Frente ao Botafogo retomou seu bom futebol: marcou, apoiou ao ataque e fez um golaço, cortando dois botafoguenses e arrematando com categoria. Nota 7,5

Jean – É impressionante como o garoto Jean se comporta em campo, pois ele joga como veterano. Habilidoso e com ótima visão de jogo mostra que está acima da média. Para consagrar sua excelente atuação marcou um golaço. Nota 9,0

Hugo – Jogou com muita raça e disposição. Ajudou na marcação. Nota 6,0

Anderson – Entrou no final. Nota 5,0

Dagoberto – Correu, lutou, suou, mas sem muitos resultados. Nota 5,5

Bruno – Entrou no final. Nota 5,0

Borges – Apostava na dupla Borges-Dagol, mas ontem estiveram sumidos. Borges, sempre muito ativo nas partidas, apagou-se frente ao Botafogo. Nota 3,5

André Lima – Não dá para entender o sumiço do seu futebol. Estreou com tudo, marcou dois gols, encheu de esperança a torcida e depois disso sumiu... Não se encontra mais nas partidas. O que será que acontece? Nota 3,5

Muricy – Mais uma vez montou um time compacto e pegador. Apostou na dupla Dagoberto-Borges, mas eles não corresponderam em campo. (Eu esperava muito dessa dupla...). Encontra dificuldades para montar um ataque eficiente, pois os atacantes tricolores estão muito irregulares: oscilam entre ótimas e péssimas atuações.

Temos que registrar a coragem e o olhar clínico de Muricy para revelar novos craques, como é o caso do garoto Jean, o senhor do meio-campo Tricolor. Acrescenta ao time, ao futebol brasileiro e gera receita para o clube. Nota 7,5

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Texto publicado no site www.tricolorpaulista.net

sábado, 25 de outubro de 2008

Futebol: Os Dois Lados da Declaração de Muricy

Os dois lados da declaração de Muricy

Por Ricardo Flaitt

Discordo da posição de Muricy ao declarar: “Quem quiser espetáculo que vá ao teatro". Mas temos que entender o que há nas entrelinhas...

Seu palpite infeliz não acrescenta nada à sua carreira vitoriosa e ascendente. Aliás, soa ainda mais absurda por ele ser um discípulo de Telê Santana. Muricy contradiz suas raízes ao vociferar essa frase.

Antes que me joguem para escanteio. Quero deixar claro que não pretendo aqui ser nostálgico e desconsiderar os novos mecanismos do futebol. É evidente que o ritmo e a pegada são outros, mas ainda defendo que um time pode ser competitivo e ofensivo sem ser burocrático.

A frase foi infeliz, mas Muricy não pensa assim e já mostrou isso com a equipe do São Paulo em 2006. Jogando no esquema 3-5-2, o time tinha uma das defesas mais sólidas do mundo e ao mesmo tempo um poder ofensivo muito grande, com vários setores atacando em massa com laterais e meias multifuncionais (ou polivalentes, como queiram).


Diante da falta de talentos em alguns setores, contusões, suspensões e venda constante de jogadores, Muricy se vê obrigado a montar um esquema mais burocrático, ora jogando com três volantes, ora improvisando Hugo no ataque e outros “remendos” mais.

O time, sem o poder das alas, está embolado pelo meio. O Tricolor precisa com urgência de dois laterais de ofício a exemplo de Kléber (Santos) ou do argentino Sorín, para que a ala esquerda seja mais uma opção para o time. Outro ponto falho na equipe é a ala direita. Depois que saíram Cicinho e Ilsinho o São Paulo nunca mais se encontrou de fato. Apenas teve bons momentos com os improvisados Souza e Leandro.

O meia armador também ainda não chegou. Depois que Danilo foi para o Japão, o São Paulo perdeu sua referência no meio. Ficou capenga. Agora temos que conviver com um ataque isolado.

Bom, mas aí não é culpa de Muricy. É culpa da diretoria que arrecada milhões entre venda de jogadores e marketing, mas não investe o suficiente na equipe. Muricy chegou até a declarar publicamente que cobrava da diretoria uma posição, mas os laterais e o meia não vieram.

Se por um lado condeno a declaração de Muricy, tenho que me curvar ao seu esquema burocrático, mas funcional, diante do elenco e as condições que o São Paulo dispõe no momento.

Quanto ao espetáculo, Muricy, o nosso palco é o Morumbi.

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(Texto publicado no site www.tricolorpaulista.net)

O Último Tango em Paris: o Amor além dos valores sociais


O Último Tango em Paris: o Amor além dos valores sociais

Por Ricardo Flaitt

Seria o Amor uma mera invenção do homem? Mas o que representa esse sentimento além dos valores atribuídos e incorporados pela sociedade? Esses são os temas que entrelaçam uma história aparentemente simples, mas que questiona um dos principais sentimentos humanos.

Em O Último Tango em Paris, Bertolucci revela o Amor e seus dramas, sem rótulos, o Amor incondicional, com suas dores e a eterna incompreensão desse sentimento tão real e ao mesmo tempo tão abstrato.

Marlon Brando interpreta Paul, um americano de meia-idade que vê sua vida ruir com o suicídio da mulher. Ao caminhar pelas ruas de Paris encontra uma jovem parisiense, a qual terá viverá uma paixão imensa por três dias.

A vida dos personagens principais (Jeanne e Paul) se realiza num quarto sem mobília. Sem se conhecerem, envolvem-se intensamente e iniciam uma verdadeira reconciliação de si mesmos através do sexo, de forma mais instintiva possível. Ali, sem estipular regras, sem estabelecer qualquer contato com o mundo lá fora, desnudam a si e ao mundo. Constroem um mundo distante dos padrões sociais, onde impera os sentidos e desconstroem-se perante o mundo.

Para que os instintos sobreponham às regras sociais eles estabelecem entre quatro paredes que a única regra é não falar nada sobre as vidas pessoais No segundo encontro, Jeanne (interpretada por Maria Schneider) diz: “é lindo não saber de nada!”. Chegando ao extremo, substituem os próprios nomes por grunhidos. Assim subvertem o mundo, seus significados e os fetiches por uma vida onde o instinto sobrepõe. Talvez o verdadeiro mundo, onde as sensações prevalecem sobre os valores instituídos pela sociedade.

Numa cena marcante para o cinema e que ficará gravada na mente de muitas gerações, a jovem Jeanne em diálogo com Paul: “Vou falar-lhe de segredos de família, essa sagrada instituição que pretende incutir virtude em selvagens. Repita o que vou dizer: sagrada família, teto de bons cidadãos. Diga! As crianças são torturadas até mentirem. A vontade é esmagada pela repressão. A liberdade é assassinada pelo egoísmo."

Bertolucci tinha apenas 32 anos quando dirigiu O Último Tango em Paris. Sem dúvida, uma obra-prima do cinema, madura, reveladora, provocadora e que nos faz repensar todos os nossos valores.

Curiosidades - Marlon Brando não usava maquiagem e praticamente improvisou todas as suas falas, fazendo com que o personagem se confundisse com o ator real. Lançado em 1972, teve sua exibição proibida no Brasil até 1979.

O Último Tango em Paris (Last tango in Paris, 1972), de Bernardo Bertolucci. Franca/Itália – Drama – cor – 130 min. Disponível em DVD.

Ricardo Flaitt é jornalista. Envie dicas e sugestões para: ricardoflaitt@hotmail.com
(Texto publicado dia 24 de outubro de 2008 no jornal Guarulhos Hoje)