terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cinema: Fahrenheit 451


Um mundo sem livros

Por Ricardo Flaitt

Você conseguiria imaginar o mundo sem livros? Esse é o tema de Fahrenheit 451, de François Truffaut.

Num mundo futuro imaginário, as pessoas vivem sob um sistema totalitário, em que os livros são proibidos, pois, de acordo com o Estado, eles criam diferenças, geram desejos e frustrações nos seres humanos.

Há um diálogo no início do filme entre os personagens Guy Montag (Oskar Werner), um membro do Departamento Fahrenheit 451, responsável em encontrar e queimar os livros, e Clarisse (Julie Christie ), professora afastada pelo sistema e apaixonada por leitura.

Clarisse: Diga-me, esse número que vocês usam, o que significa? Por quê 451 e não 813 ou 121?
Montag: Fahrenheit 451 é a temperatura em que o papel dos livros incendeia e começa a queimar
Clarisse: Eu gostaria de lhe perguntar outra coisa, mas não ouso.
Montag: Vá em frente!
Clarisse: É verdade que há muito tempo os bombeiros apagavam incêndios em vez de queimarem livros?
(...)
Clarisse: Por quê queimar livros?
Montag: É um trabalho como qualquer outro. Bom trabalho, com muita variedade. Segunda queimamos Henry Miller; terça, Tolstoi; quarta, Walt Whitman; sexta, Faulkner e sábado e domingo Schopenhauer e Sartre. Queimamo-los até ficar cinza e depois queimamos as cinzas. É o nosso lema oficial. Os livros são apenas lixo. Não tem interesse nenhum.
Clarisse: Então, por que ainda há pessoas que os lêem sendo tão perigosos?
Montag: Precisamente, porque é proibido. Porque faz as pessoas ficarem infelizes.
Clarisse: Acredita nisso mesmo?
Montag: Sim. Livros perturbam as pessoas, tornam-as anti-sociais. (...)

O disciplinado membro da Fahrenheit 451, Montag, começa a entrar em crise existencial. Não vê mais sentido no seu trabalho. Responsável em queimar livros, passa a ter curiosidade para saber o que eles contêm de tão proibidos e perigosos. Montag leva um livro para casa. Ao lê-lo descobre um mundo mágico, distante da vida insossa, tecnicista e pragmática imposta pelo sistema.

A partir daí, Montag já não se enquadra mais no sistema. Entra em colapso e passa para o lado da resistência, até se juntar com os homens-livros. Imagem genial criada pelo diretor Truffaut da ligação do homem com a literatura, no sentido amplo.






Curiosidades – Os créditos iniciais do filme não são escritos, mas narrados, para antecipar o clima de leitura proibida. Nesse momento, são mostradas várias antenas de TV nas casas. Jean-Louis Richard e François Truffaut, baseado em livro de Ray Bradbury


Fahrenheit 451 (Inglaterra, 1966), direção François Truffaut. Jean-Louis Richard e François Truffaut, baseado em livro de Ray Bradbury. Música: Bernard HerrmanFicção. Elenco: Oskar Werner (Guy Montag), Julie Christie (Linda / Clarisse), Cyril Cusack (Capitão), Anton Diffring (Fabian), Anna Palk (Jackie). Cor. 112 min. Disponível em DVD.

Premiações: BAFTA 1967 (Reino Unido), Indicado na categoria de Melhor Atriz (Julie Christie), Festival de Veneza 1966 (Itália) e indicado ao prêmio Leão de Ouro.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Futebol: A diferença entre contratações e títulos

Por Ricardo Flaitt

Agora o assunto do momento no meio esportivo é a contratação de Ronaldo Fenômeno pelo Corinthians. Sem dúvida, uma grande contratação, com repercussão internacional e a promessa de solução para o ataque do Parque São Jorge.

Corinthianos estão em êxtase. Confesso que também considero um grande fato para o futebol brasileiro. Mas nem tudo são flores nessa contratação, que ao mesmo tempo é uma jogada de marketing.

É preciso deixar claro que Ronaldo não é a solução integral para o Corinthians. O São Paulo teve uma experiência negativa em 2008 ao contratar Adriano. Tinha tudo para arrebentar no São Paulo, mas seus problemas disciplinares (para não entrar em detalhes) pesaram mais que seus gols no Morumbi.

Ronaldo Fenômeno pode ter tirado os holofotes do hexacampeonato do Tricolor, mas, a verdade é que um grande time se consolida com títulos e não com contratações.

O São Paulo, com uma equipe mediana em sua maioria, conquistou o terceiro título nacional consecutivo e o sexto na história. Fato inédito, que o posiciona de forma soberana.

Deixando o fanatismo e a paixão de lado, a verdade é que a equipe do Parque São Jorge retorna da segundona do Brasileiro. Está montando um bom time, mas ainda não conquistou nada. Se elenco ganhasse título, sem dúvida, os “galáticos” do Real Madrid nem precisariam disputar campeonato, pois seriam campeões por antecipação.

Outra constatação lógica e serena, mesmo para os mais entusiastas: “Títulos valem mais que contratações”.

Texto publicado no site www.tricolorpaulista.net

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Futebol: O cavalo arriado de Richarlyson


Por Ricardo Flaitt

Tem um ditado em Minas Gerais que fala: “quando o cavalo passa ‘arriado’ a gente tem de montar”. A máxima cabe perfeitamente para Richarlyson, que vive um momento de instabilidade no Tricolor e terá uma nova chance na equipe titular no jogo decisivo frente ao Goiás.

Rickarlyson já demonstrou, durante o Brasileirão de 2007, que é um bom jogador, tanto que foi eleito o melhor volante do campeonato e chegou à Seleção Brasileira com um futebol de pegada na marcação, bom chute, moderno, polivalente, tático e de força.

Mas parece que a Seleção fez mal para Richarlyson. Depois que retornou, abusou das firulas, deixou de lado seu futebol força e foi decaindo até chegar ao banco de reservas. Parece não ter administrado bem em sua mente a convocação. Richarlyson é bom de bola, mas não é craque.

Há que se considerar também que outros estão surgindo, como é o caso do garoto Jean, que atualmente domina o meio-campo ao lado de Hernanes. Eis que surge uma nova oportunidade para demonstrar mais uma vez seu futebol.

A torcida do São Paulo também precisa ser mais tolerante com Richarlyson e considerar o que ele já fez pelo Tricolor. Se esperaram mais de um ano para que o futebol de Dagoberto emergisse, porque não dar mais uma chance para Richarlyson?

O cavalo está passando arriado mais uma vez, agora cabe a Richarlyson suar a camisa e provar que tem espaço no Tricolor e conquistarmos o hexacampeonato.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Cinema: Lavoura Arcaica

Filho pródigo às avessas





Por Ricardo Flaitt

Lavoura Arcaica narra a história de André (Selton Mello), que sai de casa por não suportar a pressão paterna e a rigidez de uma família de libaneses, com fortes tradições, que vivem isoladas numa fazenda.

Diante do abandono, o pai (Raul Cortez), manda que Pedro (Leonardo Medeiros), o primogênito da família, vá à cidade buscar André para retornar e reconstruir a família. Pedro encontra André numa pensão. Perdido, sem destino, André conta ao irmão os reais motivos que o levaram a abandonar a família. André queria sorver o mundo além das divisas da fazenda e conhecer outras coisas além dos limites das tradições familiares. Mas existe um problema muito maior que o sufoca e o perturba: a paixão incestuosa pela irmã mais nova, Ana, interpretada por Simone Spoladore.

André regressa à família. Mas, ao contrário do que acontece na história do Filho Pródigo, o retorno só realça os conflitos e confirma a distância que existe entre o mundo que André deseja para si e o mundo traçado pelos seus pais.

O filme é uma adaptação do livro homônimo de Raduan Nassar. O diretor Luiz Fernando de Carvalho transpôs trechos do livro para os diálogos dos personagens. Fato que distanciou alguns espectadores menos exigentes acostumados com diálogos prático e de linguagem rápida.

Exala poesia em Lavoura Arcaica. Um filme sensível, com imagens belíssimas do diretor de fotografia Walter Carvalho, atuações perfeitas, consolidando-se, sem exagero, como um dos melhores filmes já realizados na história do cinema mundial.

Muitos críticos apontaram a extensa duração do filme como um ponto negativo, mas a verdade é que Lavoura Arcaica é uma obra-prima, que não perde sua força no tempo. Um filme essencial para quem gosta de cinema e para quem ainda tem preconceito com o cinema nacional.

Curiosidades – Foi o primeiro longa-metragem de Luiz Fernando de Carvalho. O filme foi realizado inteiramente em uma locação, em uma fazenda do interior de Minas Gerais. Nela, os atores e a equipe técnica passaram nove semanas, durante as quais aprenderam a trabalhar a terra, ordenhar, fazer pão, bordar e dançar como uma família de origem libanesa e rural. O próprio autor do texto original, Raduan Nassar, esteve presente durante esta etapa.

Lavoura Arcaica (Brasil, 2001), direção de Luiz Fernando de Carvalho. Drama. Elenco: Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, Caio Blat. Cor. 163 min.

Premiações: Grande Prêmio BR de Cinema 2002; Melhor filme, melhor fotografia e melhor trilha sonora no Festival de Cartagena; Prêmio do Público no Festival de Buenos Aires do Cinema Independente (2002), dentre outros.


Texto publicado no jornal Guarulhos Hoje. www.guarulhosweb.com.br